A primeira pessoa do ramo dos Brunidos que decidiu ir à descoberta das suas raízes foi o meu
Tio-Avô Augusto, irmão da minha Avó materna.
O nosso contacto com este ramo da família foi constante. Morávamos nós em Moçâmedes e,
invariavelmente, todos os Verões, a Suzete, a Manuela, suas filhas, e a Raquel, filha do outro
Tio-Avô, Luiz, passavam uns tempos connosco para aproveitarem o sol dourado da Praia das Miragens.
Depois, a Nice, mais próxima à minha idade, passou a ser a minha amiga e companheira de muitas
praias, passeios, viagens... Uma amizade que perdura pelos tempos, resistindo às distâncias...
Poderia contar muitas histórias que vivemos juntos, mas todas elas se mesclam num só sentimento:
o bom e salutar convívio que sempre mantivemos, cultivado e alimentado por um grande respeito
mútuo. Férias passadas ora na casa de uns, ora na casa dos outros... e também cheiros e sabores:
o café delicioso (o café da Chela!...), o refresco de múcua, o doce de cassussua, mirangolo ou
lohengo que a Tia Isaura tão bem fazia...
Fecho os olhos, saio pelas traseiras da casa dos meus Tios, entro pelo mato, transponho o pequeno
riacho e chego rapidamente à frente do Liceu Nacional Diogo Cão. Dali até à casa do Tio Luiz e,
logo a seguir, à casa dos meus Avós maternos, onde morava a minha Tia Tereza e família, era um
passo!
É curioso: foi naquela cidade que fiz a minha 1ª classe (1º ano do Primário, como hoje se diz) e
ali passei férias vezes sem conta, mas é bem verdade que foi em Moçâmedes que vivi, desde
menos de um ano de idade até aos meus 13 anos. No entanto, mais depressa me encontro a passear
por Sá da Bandeira, parando aqui e ali, não deixando de passar por aquele talho, do lado
esquerdo, quando se sobe, já perto do largo (não me peçam que me lembre dos nomes das ruas e
largos!...) do Palácio do Governo, que vendia os torresmos mais deliciosos que jamais comi!!! O
chamamento das raízes?!? Pode ser...
Mas, com dizia, foi o Tio Augusto quem partiu à descoberta das nossas raízes: a única vez que
veio a Portugal, não deixou de incluir no seu roteiro uma ida à Ilha da Madeira.
Uma vez lá chegado, foi até à igreja dos locais de nascimentos dos seus Pais madeirenses. Um
trabalho minucioso, que requeria tempo. Dali até chegar às falas com o padre, contando-lhe ao
que ia, foi um instante. Foi, então, que o padre lhe sugeriu que fosse a determinado
estabelecimento, onde trabalhava uma pessoa com o mesmo sobrenome. "Quem sabe?, talvez seja seu
parente..."
Atendeu-o o dono da loja. O Tio Augusto disse-lhe porque estava ali. O dono da loja,
calmamente, virou-se para o interior do estabelecimento e disse: "Ó "fulano" (não me
recordo do nome...), vem cá, que está aqui um senhor que veio de África e anda à procura da
família. Como um é a cara do outro, com certeza que são parentes!"
E foi desta maneira tão fácil que se localizou o "fio da meada" madeirense... no início da década
de '50...
Poucos mais dados tenho a este respeito. Ao certo, foi-me dito que os familiares madeirenses
eram poucos. Mesmo assim, os contactos intensificaram-se de ambos os lados do oceano.
Os meus Avós maternos chegaram mesmo a passar algum tempo, no Funchal, na casa de duas primas,
ambas professoras. Quando faleceram, não deixaram descendentes directos...
Como registo desse reatar de laços, há muitas fotos que se encontram numa caixa, em poder da
Eunice, à espera do dia em que ambas tenhamos disponibilidade de tempo para fazer uma escolha
digna deste acontecimento. Infelizmente, com o turbilhão da saída de Angola e a necessidade de
se refazer a vida algures, novamente o contacto com aquele lado da família se perdeu. Quando
tentei recuperar dados que me possibilitassem localizá-los, já a memória dos nossos maisvelhos
não ajudou...
Quem sabe?, um dia... alguém se decide e vai novamente à descoberta das nossas raízes
madeirenses?