Todos os netos que, por morarem em Benguela, ou terem a facilidade de aí se deslocarem, comungam
desse mesmo sentimento. É claro que isso só se compreende porque os nossos avós souberam
desempenhar-se das suas atribuições como avós e nos transmitiram a mensagem do amor da família,
da entreajuda, do respeito pelas nossas raízes.
Fiz questão de incluir o que a minha Avó escreveu no verso da foto. É bem o espelho do
sentimento que unia os meus Avós. A minha Mãe, quando falava dos seus Pais, dizia: "Aquele,
sim, era um casal que se amava verdadeiramente!"
Os natais eram acontecimentos inesquecíveis! Só não estavam presentes os que moravam longe e,
por motivos profissionais, não podiam deslocar-se a Benguela.
A árvore de natal era uma casuarina... Mas não se pense que era uma casuarininha, não! Batia
no teto! Ficava a um canto, enfeitada... os flocos de neve eram pedaços de algodão... e, à sua
volta, acumulavam-se os presentes. Vários para cada um... Como neta mais velha, sobrinha mais
velha, muito amada, como aliás todos os netos, fui, durante anos, a que recebeu mais presentes.
Depois de crescida, passei o facho aos primos mais jovens...
Em dias normais, acompanhávamos os nossos Avós nas suas tarefas de rotina.
A Avó começou cedo a ensinar-me como preparar algumas sobremesas. Ao mesmo tempo que me dava as
suas lições de culinária, ia contando a epopeia por que passaram os seus Pais, o Bisavô Brunido e a
Bisavó Claudina, quando chegaram da Madeira e atravessaram, juntamente com os outros colonos
madeirenses, a difícil Serra da Chela para chegar às terras altas da Huíla. Foi ali, na copa da
sua cozinha, que me foi transmitida a história dos nossos antepassados, o sentimento de respeito
pela memória dos nossos.
O Avô, depois de reformado, entretinha-se com a pequena pescaria: duas chatas, uma de nome
"Aida Maria" e outra "Ana Maria", outra neta. Diariamente ia ver o que o mar
lhe tinha oferecido.
Mas do que ele realmente mais gostava era criar galinhas e pombos. E nós atrás, de lata de milho
em punho, alimentando a bicharada! Ele e eu discordávamos somente numa coisa: ele gostava de
criar umas galinhas de pescoço careca e eu não gostava delas! Preferia as outras, todas cobertas
de penas! Mas, enfim, em prol do bom e salutar convívio, pus de lado essa nossa diferença de
opiniões e acompanhava o Avô...
Comecei a deixar de ser beneficiada pela sua companhia quando fui estudar para o colégio, na
África do Sul, em 1960. No início de 1962, após a morte prematura da sua filha mais nova, a
Tereza, eles decidiram vir para Portugal para cuidar dos dois filhos mais novos dessa filha, a
Ana Maria e o João Carlos.
No início de 1970, porque acreditávamos que o lugar de todos era em Angola, convencemos os Avós a
regressar. Vieram morar no Lobito, onde estavam as filhas Lola e Cacilda e famílias.
A casa de Benguela não voltou a ser ocupada por eles.
Nas minhas muitas idas a Benguela, sempre que podia, passava à frente da casa dos Avós. Era uma
espécie de "Olá!, estou aqui... não me esqueço!"...
Como construção sólida que era, imagino que ela ainda lá esteja, abrigando outra família.
Ficaria muito feliz se soubesse que essa família pode, de alguma maneira, sentir o que aquelas
paredes transmitem de bons sentimentos de família, pondo-os em prática no dia-a-dia da sua vida.