A Casa de Mossâmedes
Atrás da escadaria central, a sala de jantar de enormes dimensões. A mesa correspondia ao
tamanho da sala... a família era numerosa! O armário das louças ocupava quase uma parede lateral.
Talvez porque a lembrança dessa peça provenha da minha infância, vejo-a sempre como sendo
e-n-o-r-m-e, porém estreita! De tal ordem que, quando por ali se andava com passo mais
apressado ou, no caso de nós, crianças, corríamos nas nossas brincadeiras (o soalho era de
madeira com caixa de ar, característico das casas da época), as chávenas penduradas tilintavam!
Sem falar nos vários ovos de avestruz, assentes não-me-recordo-em-quê, que não lhes garantia lá
grande equilíbrio!...
Logo ao lado, a sala de visitas particular dos Avós, onde destaco a bela escrivaninha de persiana, local de trabalho da Avó Aida. Ali estava também o rádio marca "Phillips", cuja carcaça de madeira tinha sido corroída pelo salalé (m.q. térmita ou térmite, cupim). Construiu-se, então, uma espécie de esqueleto de madeira, coberto por uma capa de tecido, ficando só à mostra o painel, os botões... Mas esse seu pobre aspecto não evitava que ouvíssemos o que de melhor havia na época, inclusive a BBC de Londres...
Logo ao lado, o quarto de dormir dos Avós. Território quase sagrado para todos... Era raro,
mas sempre com muito respeito, que se adentrava essa área da casa. Por sinal, já adolescente,
eu tinha não só respeito como até temor. Depois de terem falecido, então, era como entrar numa
área fantasmagórica, tudo coberto com lençóis e empoeirado!
As restantes dependências da residência eram quartos de dormir. Um era dos meus Pais e o outro
foi primeiro ocupado pelo filho do primeiro casamento do Avô Vaz Pereira, o Hugo e sua mulher,
a Tia Lígia, da família Galiano, do Lobito, que a minha Mãe conheceu quando a sua família foi
morar para aquela cidade, tinha ela os seus 11-12 anos. Foi mais tarde o quarto do Tio Henrique,
meio-irmão do meu Pai, e sua mulher, a Tia Luísa.
O terceiro quarto de dormir, tal como todas as dependências da casa, era de dimensões avantajadas
e lá estava, jogado a um canto, o piano da Avó Aida, já bastante deteriorado. Quando,
principalmente no Verão, os filhos mais velhos Arnaldo ou Rui, ambos funcionários do C.F.B. e
residentes no Lobito, ou os amigos do Lubango vinham a banhos, na Praia das Miragens,
transformava-se numa camarata.
Mas o quarto era também o nosso parque de diversões interior. Foram muitas as brincadeiras com
os meus primos Lena e Hugo Vaz Pereira e uma custou-me um braço partido...
Ele tinha um pormenor que me fascinava: o tecto desse quarto teve também uma das suas vigas
afectada pelo salalé e, para que a mesma se mantivesse onde estava, lá em cima!, havia uma enorme
viga (um tronco que, pelo seu diâmetro e à distância, no tempo e nas recordações, deveria ser de
eucalipto) que segurava essa outra em mau estado de conservação. Aquele suporte tão
"sui generis", foi sempre para mim o único senão do nosso parque de diversões :)) ...
Descer ao jardim, passear pelo pomar, ir até à dependência onde eram guardados os patos, as
galinhas, os cabritos, etc., que vinham das "hortas" para consumo da família, era uma aventura!
No meio do quintal, ao lado de uma altíssima araucária, que se avistava de longe, a cacimba.
Todos os finais de dia, lá estava um burro (ou burra?) a puxar a nora, trazendo para a superfície
a água para regar os canteiros de flores - tão a gosto da Bisavó Soledade! -, o pomar. Era uma
cerimónia a que gostava de assistir: o burro a dar pacientemente voltas e mais voltas, a água a
correr pelas valas... e eu a correr, a acompanhar esse trajecto..., oferecendo às plantas a tão
necessária água...
No fundo do quintal, estava, aposentada!, a velha charrete que a Bisavó Soledade conduzia para
ir até às fazendas. Gostava de sentar-me lá em cima, segurar nas rédeas, imaginando passeios...
Foi depois desmantelada, as suas peças aproveitadas para ferro-velho. Dela sobreviveu apenas a
buzina, que o meu irmão levava para os jogos de basquete da Casa do Pessoal do Porto do Lobito.
O seu som rouco mas estridente fazia o delírio do público presente. Era sucesso garantido!
Um facto inegavelmente importante: quatro gerações passaram por aquela casa.
O casal Ferrão Pimentel teve três filhos, todos nascidos em Mossâmedes: a Avó Aida e os seus
irmãos, Maria (casou em Moçamedes, onde nasceram os seus dois filhos; mais tarde a família
mudou-se para Portugal) e Inácio, que morreu jovem.
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