Arraial, o ouro fez brotar um aqui, outro ali, vários pela região montanhosa.
Surgiram para abrigar aventureiros rudes, mineradores pelas corredeiras
mexendo e remexendo seixos, cavoucando barrancas de rios.
Não houve floresta impenetrável. Nada se escondeu sob espessa neblina.
Os fundos de vales foram vasculhados e todo o mundo misterioso de sonhos, de lendas,
fez-se nítido, brilhante, até o mais alto cume, Itacolomi.
Brados de ouro não se perderam pelos caminhos onde vicejavam milho e mandioca.
Grudaram em paredes de pedra.
Assim Ouro Preto tornou-se monumento arraial.
Arraial mais que precioso, vila.
Esse o desfecho natural de ouro sobre ouro, fortuna.
O bater das picaretas em rochas misturou-se ao clamor de sinos que adentrou as minas.
Construir e orar. Orar e lavrar.
A ânsia de lavrar confrontou homens açoitados pela cobiça.
Em cada um, a necessidade de construir Vila Rica por força ou por ideal.
Muitos morreram, para que a história se fizesse marcante, inesquecível.
Anônimos alguns, outros ilustres.
Joaquim José ultrapassou os limites do lugar. Fecundou a nacionalidade,
imortalizou-se Tiradentes.
Vila Rica a tudo assistiu.
Por isso Ouro Preto é monumento vila.
Vila Rica, cidade.
Cidade com casas de forte presença e dignidade no vestir-se de frontaria barroca.
A unidade do conjunto enternece. Indo e vindo, morro acima, morro abaixo,
Ouro Preto lançou mão das ondulações do terreno para compor cenário.
Depois fincou casario pelas vertentes das colinas.
Cada moradia junto da outra, escoramento mútuo,
formando ruas tortuosas, ladeiras íngremes, em procissão rumo às igrejas.
Cada igreja impregnada de passado artístico, projecção barroca da espiritualidade mineira.
O entalhe, a pintura, a pedra-sabão.
Ataíde, áspero e delicado pincel.
Antônio Francisco, genialidade e louvor. Mesmo vivendo a noite fechada de Aleijadinho.
Suas obras valorizam a cidade.
Ouro Preto é monumento cidade.
Importante cidade, capital.
A vida moderna, a urbanidade, não impediram coleção de antigas conquistas.
Nem as heranças barraram progresso. Só fizeram entrever o mistério de Ouro Preto,
aquele ar de descanso, o olhar profundo e parado, às vezes semblante grave.
Grave porque distante do ouro farto, colhido da terra.
Com sentimento barroco, Ouro Preto revela gratidão.
Nunca renunciou ao passado. Também não se furtou ao dever.
Ouro Preto é monumento capital.
Velha cidade, velha figura.
Recordações a cada curva, Ouro Preto inspira, afeta, freqüenta sensibilidades.
Foi preciso estender, por decreto, feição e talento.
Para que nada se perdesse. Para que tudo fosse enfim saboreado.
Ouro Preto é monumento nacional.
Por todas as pedras e seus significados mágicos.
Por todas as ruas e suas construções antigas.
Por todos os sinos e sua singularidade mística.
Por todos os chafarizes e suas histórias de amor.
Pelos passos, pelas pontes, pelas fontes. Pelo cotidiano e pela humanidade.
Ouro Preto é monumento mundial.