A Cuanhama
Na minha introdução, “Imitando o Guardador da Palavra”, menciono que são 6 os ramos da minha
família, porque jamais deixaria de mencionar os padrastos tanto do meu Pai (Vaz Pereira) como
da minha Mãe (Cruz Guimarães) por tudo quanto significam para nós.
O relacionamento com os restantes membros da família Guimarães foi sempre de carinho, de amor.
Quando pela primeira viemos a Portugal, no ano de 1956 (o da invasão da então Checoslováquia
pelos soviéticos, que vivi intensamente), fomos conhecer a família Guimarães a Travassos, Póvoa
de Lanhoso, no norte de Portugal. Contava a minha Mãe que, às tantas, durante a noite, ela
levantou-se para ver como estavam os seus filhotes. Ao mesmo tempo, dos seus respectivos quartos,
saíram também o Tio Celestino e a sua mulher, a Tia Alda, e a sua irmã Berta. Tinham-se levantado
para ver os meninos! Os cuidados e gentilezas com que sempre nos rodeiam demonstra de forma muito
clara que somos verdadeiramente uma família!
Um dos filhos do Tio Celestino, o Nel, fixou-se em Nova Lisboa, hoje Huambo, e casou-se com uma
angolana, nascida em Caluquembe. Quando saíram de Angola, fixaram-se no norte de Portugal.
Desde que a Mãe Lola está doente, tenho recebido com alegria e gratidão a visita da Carmito e do
Nel, pelo menos umas 3, 4 vezes por ano. Sem mencionar os telefonemas de alento, que são inúmeros.
A última vez que aqui estiveram, o tema “Angola” foi naturalmente abordado. A história que a
Carmito me contou, relativamente aos seus antepassados do lado materno, fascinou-me! E logo
inquiri e obtive mais dados... decidi, com a sua anuência, relatá-la nestas páginas...
Recuemos, antes, no tempo ...
Existia um reino que se notabilizou tanto pelas suas tradições como pela sua extensão e número
dos seus súbditos... altivos, de grande estatura física, criadores de gado por excelência...
Era o Reino dos Cuanhamas, que ocupava uma vasta área que se estendia desde as proximidades de
Vila Roçadas, hoje Xangongo, acompanhando a margem esquerda do Rio Cunene, próximo de Mucope, e
terminava a jusante das quedas do Ruacaná, confinando com o território do povo Vahimba, nas savanas
semi-desérticas que vão até à foz do Rio Cunene. Aí, flectia para Sul, ultrapassando a
fronteira de Angola, internando-se por grande parte da actual Ovambolândia, na Namíbia, antigo
Sudoeste Africano.
Era, pois, uma tribo de Ovambos, que ignorava em absoluto as fronteiras coloniais impostas.
Não usavam a escrita... a sua história verbal chegou até nós, guardada no imaginário de gerações
de contadores de histórias...
Pois a Carmito é descendente de cuanhamas. Mais precisamente, bisneta de Elisabete Jambeca, a
famosa cuanhama que, de cartucheira ao peito, lutou ao lado das tropas portuguesas, durante a I
Grande Guerra, na luta contra os alemães, na fronteira de Angola e do então Sudoeste Africano.
Os seus feitos, segundo me relatou, foram notícia em jornais/revistas da época.
Provavelmente ter-se-á cruzado com o meu Avô materno, José Ferreira d’Abreu, que também
participou nessa campanha!!! (estou a entrar no campo da imaginação :)))) ...)
Elisabete Jambeca pertencia a uma família da nobre. No seu seio, era a mulher mais velha que
herdava o título. Falava o seu dialecto e o inglês – somente – e a sua embala localizava-se
próximo a Naulila. Casou-se com um sueco de nome Thomas Ericson que, na região de Damaralândia,
explorava uma mina de ouro. A filha desta união, Maria Eugénia Ericson, nasceu no Cuanhama.
Maria Eugénia casou com Alexandre Augusto Miranda e a sua filha, Maria Teresa, Mãe da Carmito,
já nasceu na Chibia, Província da Huíla.
Elisabete Jambeca continuou a viver na sua embala, no Cuanhama. Quando os seus dias chegaram ao
fim, os seus parentes cuanhamas pretenderam realizar o seu funeral seguindo os ritos do seu povo.
Sabe-se que o ritual fúnebre da realeza se revestia de um secretismo absoluto e do qual
participavam somente homens: quimbandas (um misto de médico e de feiticeiro, com direito de vida
e de morte sobre o cidadão comum), feiticeiros e mágicos e ainda elementos da própria corte do
defunto. Sacrificava-se um boi soba, de cor branca, considerado sagrado. A sua cor imaculada
tinha um significado especial, consubstanciado na alma do defunto, uma vez que a sua pele, ainda
ensanguentada, envolveria o falecido monarca, para facilmente se modelar ao conteúdo. Este
seria colocado na posição fetal, os joelhos tocando o esterno, de cabeça bem erguida, como se
estivesse sentado no seu trono, mantendo esta atitude até à inumação total. Era enterrado
virado para Nascente, para assistir eternamente à renovação, cujo caminho seria iluminado pela
força da justiça e da inocência representadas na figura de duas crianças, colocadas vivas, uma
de cada lado do seu corpo, perpetuando a reinação. Esta palavra que, para um indivíduo com a
chamada “cultura ocidental”, poderá não se encaixar perfeitamente, reflecte, todavia, nos
contornos da própria negritude, as vertentes política e circense do termo, tocando-se e
complementando-se.
Posteriormente, adoptou-se o costume de, em vez das crianças, se sacrificarem dois escravos,
elementos de outra tribo, capturados em combate, e escolhidos para esse efeito.
A sua filha, porém, não concordou que se sacrificassem as crianças e contactou as autoridades
portuguesas. Consequentemente, o seu funeral realizou-se segundo os costumes portugueses e teve
honras militares. Elisabete Jambeca foi sepultada com a espada e Grande Cruz de Guerra que lhe
tinha sido concedida pelo governo português, pelos serviços prestados na campanha do Sul de
Angola.
No dia seguinte, porém, as duas crianças apareceram afogadas, num pequeno charco de água...
Dizia-se que, afinal, elas não poderiam ter sobrevivido porque o seu destino já tinha sido
traçado...
Uma bela história, dirão uns... estranha, pelos seus ritos, dirão outros... não tão estranha
se nos recordarmos de costumes idênticos de outros povos, os do Egipto, por exemplo...
Num ponto, todavia, todos concordaremos: Elisabete Jambeca é indubitavelmente uma figura de
Angola. Ela lutou e contribuiu para que as fronteiras do seu país se mantivessem intactas.
Nota: Agradeço ao Fernandino Paulo Rodrigues, primo-direito da Mãe Lola, informações acerca de usos e costumes do povo Cuanhama, entre os quais os ritos fúnebres, tão importantes para se compreender o desenrolar da narrativa.
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