À Beira da Catástrofe

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Para mim tratava-se de uma viagem muito especial. Por isso o meu coração exultava de alegria, quase que estoirando de ansiedade para chegar a Lugajol.

Estávamos em vésperas do Natal de l989, e a melhor prenda que poderíamos ofertar a toda a equipa da A.M.I. - Assistência Médica Internacional - colocada no Boé, era, sem dúvida, um jipão Unimog e uma central eléctrica com capacidade suficiente para servir uma vila de média dimensão.

Quando cheguei à margem do rio Corobal, no lugar do Tché-Tché, já o dia declinava. Logo que o Astro-Rei tangeu a linha do horizonte, a dança cromática do firmamento ensaiava os seus primeiros passos, convidando à meditação.

Inopinadamente chegou o jipão Unimog conduzido por um motorista nacional contratado para o efeito.

De seguida, demos início ao embarque das viaturas na jangada que fazia a ligação entre as duas margens daquele caudaloso rio. Em primeiro lugar, o jipão com a sua preciosa carga, depois o jeep U.M.M. em que normalmente me transportava.

O aspecto do Céu, naquele preciso momento, mobilizou toda a minha atenção. Algo quase que indescritível se estava passando a nível da cúpula sideral. Numa profusão incontrolada de cores, o espectro cromático ia do opalino irisado ao laranja, do rosa ao rubi, do anil ao índigo, e deste ao violáceo purpurado, em todas as suas cambiantes, umas vezes em crescendo progressivamente forte, noutras em forma regressiva, diluindo-se harmoniosamente, ou mesmo imbricando-se em apoteóticos ígneos fogaréus, emoldurados de negro ou de cinza, ali e mais além atravessados em pequenos pontos por lanças de oiro e diamante, como lampadário sideral, lá, onde o Céu e o Inferno se confundem, e anjos e demónios trocam gentilezas num processo fraudulento de convencimento e arregimentação recíprocos, que raramente resultam, mas, quiçá, já provocaram a queda de alguns anjos!...

Eis se não quando, no meio desta quietude apaziguadora, um grito selvagem irrompeu, numa voz angustiada: “O carro vai cair no rio!”. De facto, o jipão Unimog que ficara em ponto morto e não fora travado nem calçado, por incúria ou descuido do motorista que o conduzia, arrastara-se perigosamente para a borda dianteira do tabuleiro da jangada, por acção do movimento ondulatório, preparando-se para se precipitar nas águas profundas do Corobal.

Instintivamente dei um salto, agarrando-me de seguida, com quantas forças tinha, à traseira do Unimog, gritando como louco: “Ajudem a puxar o carro!”. A sorte foi estarmos na Guiné-Bissau e entendermo-nos em português, porque, de contrário, teria sido catastrófico.

Mesmo in extremis aquela viatura deteve-se a escassos centímetros do abismo. Fiquei a arfar, mas poucos momentos volvidos a calma foi restabelecida e tudo regressou ao seu lugar.

Logo que a situação foi dada por controlada, efectuou-se a travessia do Corobal com destino a Lugajol.

O resto do trajecto acabou por correr na perfeição, mas aquela imagem de catástrofe iminente não mais abandonou o meu espírito até ao fim da jornada. O Natal, que se adivinhava alegre e cheio de luz, por um golpe do destino, poderia ter sido ensombrado e aquele facto insólito bem poderia ter prejudicado a alegre e gostosa surpresa de Natal que me propunha fazer ao resto da equipe que desde há muito reclamava um sistema mais eficiente de fornecimento de energia e que, naquele preciso momento, ignorava em absoluto a sua chegada na véspera daquela quadra festiva.

Aquele facto inusitado, fruto de um simples percalço, foi uma bela lição que ali aprendi, funcionando como um apelo à cautela para todo o porvir, recordando-me que tal descuido, que bem poderia ter sido fatal, jamais poderia repetir-se na minha vida. Por isso, em qualquer outra situação idêntica futura, previamente, e em etapas sucessivas, tudo seria checado até à exaustão, para, assim, conseguir contrariar qualquer lance de azar emergente.

Mesmo com a central eléctrica ainda instalada na caixa do jipão Unimog, esta foi posta a funcionar, proporcionando-nos um Natal bem diferente, pleno de luz, comodidade e alegria.


Escrito em Setúbal, Portugal, no ano de 1996.

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