Nem sempre desfiar recordações é sinónimo de um nunca-mais-parar-de-nos-divertirmos. Aconteceu
por vezes, no Brasil, quando me pediam para falar sobre Angola, chegar ao fim da conversa
sentindo-me cansada - fisica e psicologicamente. O mesmo sucede com este trabalho que me propus
realizar. Tudo muito bem se se recordam brincadeiras de infância, etc.. Mas há temas dolorosos.
Por isso, escrevo as crónicas que têm como pano de fundo a nossa querida Angola aos zigue-zagues,
intercalando as mais sérias com outras ligeiras e o restante trabalho...
Há também os temas sobre os quais, covardemente, adio escrever... É o caso da minha Mãe. A
família e os amigos de longa data têm acompanhado a sua doença e sabem que, depois de sofrer
vários AVC's, ela não resistiu ao 6º e acamou. Aconteceu no final de Janeiro de 2000. O
veredicto foi que não resistiria. Mas a sua vontade de viver e a maneira como sempre enfrentou
a vida, apesar da adversidade, apesar de tantos motivos para chorar, fê-la voltar para a vida.
Não voltou, porém, a andar...
Só Deus sabe a hora da sua partida. Sei, porém, como me avisou o seu médico, que "um dia,
começaríamos a descer os degraus"... Por alterações que têm tido lugar desde o início deste
ano (estamos em Agosto de 2002), tenho consciência de que começámos a percorrer esse penoso
trajecto. Não vou deixar para mais tarde a homenagem que quero prestar-lhe.
Por que razão o título "A Mãe Lola: a Lição"? Dirão: "Se todos nós só recebemos lições
das nossas Mães!" Verdade! Mas não somos somente nós, seus filhos, que recebemos as suas lições.
Quantas vezes, neste período da sua doença, tenho ouvido dizer: "Esta tua Mãe é uma lição!"
Começamos a receber lições a partir do momento em que nascemos... a maneira como somos tratados e
criados deverá reflectir no nosso comportamento e essa é a primeira lição que recebemos... um
ensinamento que nos leva a sermos iguais ou pelo menos parecidos com a nossa Mãe... o nosso
Pai...
A rapidez com que a Mãe Lola reage a situações, pondo imediatamente em prática o seu bom humor é
uma característica conhecida de todos quantos a conhecem. Foi logo após o meu nascimento que
recebi a sua primeira lição de bom humor, embora somente mais tarde tivesse tomado conhecimento
do sucedido.
Acontece que a autora desta história teve muita dificuldade para nascer... Foi em Benguela, no
Hospital Central... Naqueles idos tempos, os recursos eram escassos e foram precisos quase dois
dias para que visse a luz do sol... Essa luta para sair do ventre da minha Mãe, custou-me um
rosto muito amassado, os olhos inchados... A enfermeira apresentou-me à minha Mãe, declarando:
"Aqui tem uma linda menina!" A minha Mãe olhou para mim, naquele estado deplorável!, e disse:
"Linda?!? Parece um pinto com bexigas!"... visão que os mais novos desconhecem :)) Felizmente
as enfermeiras, entre elas a sua amiga, a saudosa Margarida van Dunen, sabiam do seu jeito
brincalhão e não duvidaram do seu amor pela filha recém-nascida.
A segunda grande lição teve lugar já em Moçâmedes, por volta dos meus 3 anos. Foram meus
companheiros de brincadeiras a Lena Hugo (Vaz Pereira) e o Jone (Jerónimo) Mwangala. A Lena,
minha prima, neta do padrasto do meu Pai, é mestiça; o Jone era o filho mais velho do nosso
cozinheiro, o Rafael. Eu não sabia pronunciar o seu nome correctamente e apelidei-o de
Jone e assim se chamou o resto da vida. O Jone (morreu pouco tempo depois de partirmos de
Angola, com paludismo cerebral) era de raça negra... os seus Pais eram bailundos. Éramos o
retrato da Angola mestiça... Até que veio o dia em que me apercebi que tínhamos tons
diferentes de pele e perguntei à minha Mãe a razão. Ela conduziu-me até aos canteiros de flores
da Bisavó Soledade: "Vês as flores que Deus criou, de cores diferentes? Deus também criou as
pessoas de cores diferentes..." Devemos respeitar as pessoas pelo seu carácter e não pela
cor da sua pele... pela sua posição social...
A sua dedicação pela família pode dizer-se que foi sempre, desde criança, incondicional:
naqueles tempos difíceis, em que tanto o Pai como a Mãe tinham de trabalhar fora de casa, foi
ela que, como mais velha, cuidou dos irmãos mais novos. O seu desvelo pelos irmãos,
principalmente pelos 2 mais novos, ultrapassou o amor fraternal: confessou-me inúmeras vezes que
sentia como se sua mãe tivesse sido porquanto cuidou deles desde que nasceram.