A Mãe Lola: a Lição
Não enumerarei as pessoas de que cuidou. Citarei somente um caso: quando à sua irmã Tina foi
diagnosticada a doença que a levaria aos 46 anos de idade, não hesitou em deixar-nos no Lobito
e seguiu de avião para Luanda. Cuidou dela até à sua partida. Pela situação que o agregado
familiar dessa sua irmã atravessava na altura, a única pessoa disponível para cuidar dela era a
minha Mãe e, embora o médico tivesse dito que se tratava de uma doença que requeria
hospitalização, fez-lhe a vontade e permaneceram em casa. Foram 3 meses presenciando, dia e
noite, o sofrimento da irmã, proporcionando-lhe o conforto possível, animando-a, sabendo de
antemão que o final seria somente um. Quando finalmente regressou ao Lobito, ao vê-la sair do
avião, pude ver, mesmo de longe, o sofrimento estampado na sua figura e chorei! Só muitos anos
mais tarde, já no Brasil, se abriu e me deixou entrever um pouco do que foram aqueles terríveis
meses. Depois, calou novamente essa dor dentro de si.
A sua piedade pelo próximo era discreta e testemunhei-a desde criança: os empregados das hortas
que, doentes, eram internados no hospital de Moçâmedes, fugiam de lá e vinham para a nossa casa e
alojavam-se nas dependências, no quintal. Segundo eles, a razão era muito simples: a minha Mãe
sabia cuidar melhor deles... Assisti muitas vezes às sessões de curativos de feridas
impressionantes... Jamais a ouvi reclamar dessas tarefas; pelo contrário, desempenhava-as com
cuidado, responsabilidade. Os empregados só voltavam à fazenda depois de completamente
recuperados...
Já adulta, todos os finais de mês, juntamente com a compra de mantimentos para a nossa casa,
havia outros ranchos que eram preparados e distribuídos por várias famílias necessitadas no
Lobito, independentemente da cor da sua pele...
Nestes 2 anos e meio, em que vagarosamente a Mãe Lola recuperou a consciência, ela tem-nos dado
muitas lições de vida: em momentos de total lucidez, brincando e gracejando, até mesmo acerca da
situação em que se encontra... participando em conversas, contribuindo com a sua opinião...
muitas vezes falando em umbundu em frases curtas às quais tento responder com os limitados
conhecimentos que tenho da língua... Por ocasião de uma das visitas da nossa prima Lena Roque,
esta leu-lhe em umbundu frases e uma série de ditados retirados de um livro que possuo e
admirou-se com o seu conhecimento! Isso é ainda mais notável se nos recordarmos que ela tê-lo-á
aprendido nos seus primeiros anos de vida, quando os seus Pais andaram pelo planalto central de
Angola... é a memória passada funcionando... Várias vezes afirma: "Tenho saudade de trabalhar!
Parece impossível que se tenha saudade de trabalhar, mas eu tenho!"... ou ainda, nos momentos de
desânimo e cansaço, desabafando e indagando da razão por que se encontra presa a uma cama, logo
fazendo um esforço enorme para recompor o rosto, invocando a vontade de Deus...
De dia ou mesmo de noite, já aturdida pelo efeito dos medicamentos que lhe administro para
dormir, jamais se esquece de agradecer... "Obrigada!... Dápandula tchálua!"
Quando, pela primeira vez, não me reconheceu, o choque foi enorme! Aprendi, todavia que o único
meio de ultrapassar essa situação é brincar e, jogando com as palavras, tentar, e conseguir!,
reavivar a sua memória, para que não se esqueça dos seus...
Por outro lado, temos tido bons momentos de descontracção e, durante o ano de 2001, quando a sua
recuperação foi notória, da cama hospitalar cedida pelo hospital, ela podia ver o que eu fazia no
computador... Conhecedora do seu bom gosto e sentido de estética, pedi-lhe várias vezes a opinião
sobre cores e posicionamento de "cliparts" e acatei sugestões suas. Inclusive, o fundo da
página que lhe dedico foi escolha sua, entre várias alternativas que lhe apresentei...
Já não conto, porém, com a sua ajuda há algum tempo... a sua visão que, segundo o especialista,
foi sempre muito melhor do que a minha, enfraqueceu...
De família evangélica (baptista), transmitiu-me as bases espirituais da sua fé. Seja ela qual
for, são importantes para a vida de todos nós. Tomei a decisão de me baptisar há somente 7 anos
(como se sabe, os evangélicos só tomam esta decisão em consciência, já adultos). Por uma destas
coincidências da vida, teve lugar no Dia da Mãe.
As suas lições, chegadas que estamos a esta altura das nossas vidas, são suficientes e sólidas:
exemplos de rectidão, bondade, compaixão, respeito pelo próximo, resignação, esta última, quanto
a mim, às vezes até demais!, com o que discordo :))... É certo que cada um de nós faz a sua
opção de vida. Ela mostrou o caminho... basta tentar trilhá-lo.
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"Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará;
Direi do Senhor: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e n'Ele confiarei." Versículos 1, 2 do Salmo 91, o seu preferido. |
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