Nonguluvi

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Na tentativa de montar a árvore genealógica da família... trabalho imenso dada a sua “densidade demográfica” :)))) ..., tenho tido o prazer de reencontrar parentes que há muito não via, conhecer outros de que só sabia o nome... assistir de perto e de longe ao seu crescimento...

Só há pouco menos de 2 anos tive a oportunidade de conhecer melhor o Fernandino. Morando longe, jamais deixou de telefonar e encorajar-me. Como técnico de saúde, recebi conselhos que me ajudaram a cuidar da Mãe Lola, sua prima direita. Por isso lhe estou muito grata.

No desempenho da sua profissão, percorreu Angola e conhece muito dos hábitos dos seus Povos. Participou, também, em várias missões da AMI – Assistência Médica Internacional e ficou, assim, a conhecer outros países lusófonos.

A sua crónica em verso recorda a fazenda de seu Pai, um dos filhos do casal madeirense, António e Claudina Rodrigues, meus Bisavós maternos. A propósito, escreveu-me:

“Não te expliquei que onguluvi quer dizer javali (Portanto, Nonguluvi, quer dizer “o lugar onde há javalis”.), e que foi o nome que o meu Pai deu à sua propriedade rural que mantinha junto da Cidade do Lubango. Aí, nessa mesma propriedade, a 03.06.1932, pelas 16 horas e 56 minutos, nasci, prematuro, com sete meses de gestação. Eis o motivo deste meu encantamento apaixonado. São coisas.”

NONGULUVI

Copyright © Fernandino Paulo Rodrigues Brunido.
I
Sei que tens nome de porco,
Mas isso não me incomoda,
Por ti sei que estou louco,
Por nunca passares de moda.

II
Para meu pleno conforto,
Basta apenas recordar,
Todo esse caminho torto,
E esse teu belo pomar.


III
Nêsperas, peras e figos,
Vinte e tal frutos diferentes,
Árvores de sombra, bons abrigos,
Para contento daquelas gentes.




IV
Não posso olvidar aquela nocheira,
Erecta, elegante e majestosa,
Plantada juntinho à eira,
Dando fruta tão cheirosa,
E quando apertava o calor,
Da forma mais carinhosa,
A todos acolhia com amor.

V
Especialmente na debulha,
Em dias de sol escaldante,
Com os olhos postos na tulha,
Naquele ritmo estonteante.

VI
Os nativos joviais,
De alegria esfuziante,
Desligados, sempre iguais:
Devagarinho para diante.

VII
Eles não gostam de correr,
Tudo vai no leve, leve…
O que nos custa a entender,
Não se vai lá com estudo breve!...

VIII
As cubatas e os chipôpos,
Os porrinhos e as mutungas,
Fazem de nós uns loucos,
Com tamanhas barafundas.

IX
Tudo é primário e comedido:
É a cama que não existe,
Couro de boi estendido,
Que a qualquer corpo resiste.

X
Que a todos bem consolas,
Com suprema mestria,
Melhor que um colchão de molas,
Que, acenando, nos desafia.

XI
A sua habitação, é cubata circular,
De uma só assoalhada.
Com permanente reciclagem d’ar,
Onde o fumo logo se espalha,
E que em breve irá parar,
Sem a mais pequena falha,
À exterior circulação do ar.

XII
Tantas frutinhas do mato,
Que até nos fazem sonhar,
Bastando mirar um retrato,
Para a alma consolar.




XIII
Hoje por aqui me fico,
Deixo o resto para depois,
Falarei de cravos e manjerico,
Das garbosas juntas de bois.

Setúbal, 7 de Fevereiro de 2001.



XIV
P’ra adocicar teu perfume,
Também havia violetas,
Rosas bravas no tapume,
Delimitando as valetas.





XV
Cravos e manjericos,
Disputando a primazia,
Vendo passar os mwfikos,
Em plena luz do dia,
Muito mais eloquentes,
Que aqueles rubros poentes
Que a todos embevecia…

XVI
Na época das sementeiras,
Muito antes e depois,
Para além das bananeiras,
Garbosas juntas de bois.




XVII
Alinhadas pelo rego,
Com tamanha perfeição,
Maravilha que não nego,
No rigor da execução.

XVIII
Agarrado à rabiça,
Para lhe manter o rumo,
Muitas vezes com preguiça,
Caminhava o velho Fumo.

XIX
Era o chefe das manobras,
Que lutando, a tudo resistia.
Só não podia ver cobras,
Largando tudo, corria.

XX
Numa correria louca,
Gritava com voz tamanha:
Lwpwka, ateka, tala ó nhoca,
Kwata ombwete, pola ó mamanha.


XXI
Era uma tamanha gincana,
Tão cheia de derrapagens,
Porque para a gente africana,
Era o supremo horror das imagens…

XXII
A cobra teria seu tempo acabado,
Era só pela pedra aguardar,
Se não houvesse um cajado,
Para se cumprir aquela regra milenar.

XXIII
Era o medo ancestral,
Que por dentro os tocava,
Produzindo um grande mal,
Que quase os paralisava.

XXIV
Não havia nada a fazer,
Quando a coisa acontecia,
Era deixar o tempo correr,
E esperar pela acalmia.

XXV
O preto nunca vira branco,
Nem perde a pele como a cobra,
Mas prefiro ser bem franco,
E confessar que aquilo tudo é obra!...

XXVI
Os olhos viram coriscos,
A face vai p’ró cinzento,
Ganham tantos tremelicos,
Que até confundem o evento.

XXVII
Em presença de um impasse,
Quando a cobra se empina,
Se o tchinkwane transpirasse,
Não cheiraria tanto a urina!...

XXVIII
É a magia africana, em constante movimento,
Gerando coisas bizarras, por vezes repugnantes,
Que para o nosso cabal entendimento,
Se poderão tornar fatalmente paralisantes.



Tradução da estrofe XX:

Rápido, corre, olha a cobra
Agarra um cajado, traz uma pedra.







Setúbal, 13 de Março de 2001.

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