No dia 4 de Novembro de 1916, na Latitude Norte vinte e oito graus e trinta e seis minutos e
Longitude Oeste de Greenwich dezassete graus e dois minutos, em viagem entre a Ilha de São
Tomé para a Madeira, como constava no livro de regitos de nascimentos da Companhia Colonial de
Navegação, nasceu a minha Mãe.
Foi chamado à pressa um casal (José Batista Salgueiro e Jesuína Batista Salgueiro) que
testemunhou o acontecimento e, como era hábito na época, a minha Mãe quase se chamou "Maria
África"!!! Porém, os seus Pais não concordaram e escolheu-se, então, Aurora, a Lola, como é
conhecida por todos.
A minha Avó Júlia contava que, após o parto, quando tudo já estava calmo, ela ouviu um
assobiozinho, muito fraco!, e perguntou ao seu marido a razão por que assobiava e ele disse-lhe
que estava muito feliz por ter podido conhecer a sua filha.
Poucos dias depois chegaram a Lisboa. O meu Avô foi imediatamente internado no Hospital S. José,
onde veio a falecer no dia 16 daquele mesmo mês.
Embora a minha Avó tivesse sido bem recebida pela família do seu marido, Portugal era um país
completamente estranho para si. Regressou, portanto, a Angola com a sua filha recém-nascida.
Algum tempo depois, ela conheceu aquele que viria a ser o seu segundo marido e pai dos seus
outros quatro filhos. E também o Pai maravilhoso da minha Mãe.
Recordo-me de repetidamente ouvi-la dizer que, embora José Ferreira d'Abreu tivesse sido o seu pai
biológico, o seu padrasto, Álvaro da Cruz Guimarães, foi realmente o seu Pai, aquele que a amou,
lhe deu, juntamente com a sua Mãe, a educação, a instrução possível para a época. Aquele que
jamais fez qualquer tipo de discriminação entre ela e os seus filhos. Repetidamente dizia-me:
"Por ele, mal nenhum viria ao mundo!"
E, assim, só quando alguém repara que somos portadores de sobrenomes diferentes e indaga, é que
somos levados a nos recordar da razão dessa diferença e com orgulho afirmar que ninguém das
gerações que se seguiram se lembra de que os pais, os avós eram meio-irmãos.