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O tempo foi passando e, prestando atenção à cidade, descobri que, além da fumaça, de coisas feias (que tem!), tem também muita coisa bonita e muitas cores que lhe são emprestadas pelas suas árvores e arbustos. Infelizmente, nem todos os bairros são beneficiados. Mas os que são apresentam-nos, lá para o início do ano, o rosa das paineiras, árvores que encontramos quando se viaja pelo interior, e que, heroicamente, resistem nas avenidas mais poluídas de São Paulo e também em muitos quintais. Logo a seguir, vem o rosa-alilasado, o lilás e o roxo, por vezes com pinceladas de branco, das quaresmeiras... as que, por expontâneas, enfeitam toda a Serra do Mar, a caminho de Santos, que só quem já viu sabe o que é... Depois, conforme a temperatura vai baixando, começam a florir as azaleias ou azáleas... de várias cores, também, colorindo, jardins e sebes... Pelo meio, há as árvores com flores de um encarnado garrido, outras de um amarelo torrado, de que me esqueci os nomes, mas que dão à cidade um ar tropical... E lá para Setembro, temos as nossas já conhecidas acácias rubras, como dizíamos em Angola, e que no Brasil são chamadas de "flamboyants", e os jacarandás.
A grana, essa, poderia construir mais coisas belas (no abstracto e no concreto), mas há sempre a
esperança de que um dia este novo kilombo se humanize ainda mais, acrescentando ingredientes que,
somados ao colorido das árvores e ao belo que já lá está, se torne um local onde a vida de todos
os novos baianos seja mais digna.
O meu bairro - Cerqueira Cesar - fazia parte da selva de cimento de São Paulo. O prédio onde
morei é antigo, tem três andares, portanto não é visível no amontoado de arranha-céus... Fica no
cruzamento de duas ruas cujo movimento e ruído do trânsito dificilmente pára, dia e noite...
Apesar dessas características tão comuns a todas as grandes cidades, as árvores abundam por ali e
abrigam os mais variados pássaros que nos alegravam com o seu cantar. Eram o comum pardal e
outros do mesmo porte, as ararinhas que voavam rente à nossa casa, em bandos barulhentos, os
beija-flor que emitem um som que, à primeira vista, não é simpático mas de que nos esquecemos
pela contrapartida que nos oferecem: a beleza, a leveza do seu voo... movimentando-se ou
pairando no ar... as delicadas asas quase invisíveis, tal a rapidez com que as batem...
Com o tempo, fui construindo o meu refúgio: transformei a varanda num jardim e instalei
atractivos que trariam até nós os pássaros que admirávamos ao longe... Depois, aguardámos que
nos visitassem... chegaram, até, a criar as suas ninhadas entre os ramos das samambaias... fetos,
como se diz em Portugal.
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