Um dia, perguntei à minha Mãe por que razão os Avós Álvaro e Júlia e a sua ninhada mudaram várias
vezes de residência até se fixarem definitivamente em Benguela, em 1933. "O Avô ia para onde
lhe ofereciam trabalho.", foi a resposta.
Foi assim que o Avô arranjou emprego numa fazenda no Canjungo. O Canjungo situa-se na Província
do Bié, próximo da Catabola. Vizinhos mais próximos... não me recordo mais do que me contaram,
mas distavam uns bons quilómetros...
Pois foi no Canjungo que nasceu o meu Tio Varo ou Varito... Álvaro como o seu Pai...
Além da responsabilidade de levar o nome para diante, o facto de ter sido o primeiro angolano de
raça branca a nascer naquela localidade, fez com que outro título lhe tivesse também sido
concedido.
Sucedeu que, na mesma altura em que o meu Tio nasceu, também o soba (m.q. chefe de tribo, em
África; régulo) da região foi presenteado com o nascimento do filho varão. Houve grande festa e
o som do batuque ouviu-se até ao nascer do sol...
O soba foi então visitar os meus Avós. Comunicou-lhes que, como os seus filhos tinham nascido na
mesma altura, o nome do seu filho seria Varito e o meu Tio chamar-se-ia Soba Cajungo. É claro
que esse título não lhe conferia quaisquer direitos ou prerrogativas, mas reflectia o bom
relacionamento que existia entre os habitantes do Canjungo.
A diferença de idade entre a minha Mãe, a mais velha, e o meu Tio, o mais novo, é de 10 anos.
Os meus Avós trabalhavam ambos na fazenda e foi, portanto, com essa idade que ela assumiu as
responsabilidades de dona de casa, olhando, ao mesmo tempo, pelos irmãos. Nada de invulgar na
medida em que, naquela época, esse era um procedimento habitual.
A família permaneceu 4 anos naquela fazenda. Em 1930, o meu Avô arranjou emprego no Lobito e
partiram. Embora tivesse havido muito sacrifício, a vida ao ar livre, deixou saudade.
E por falar em ar livre, há a história de, um dia, um indivíduo ter sido atacado por um leão que,
numa sapatada só, lhe soltou o couro cabeludo, que ficou preso por pouco. Foi nesse estado
deplorável que ele foi pedir socorro à casa da fazenda. A minha Avó reuniu a coragem que tinha
(e, se calhar, a que não tinha...), preparou agulha e linha vulgares, que desinfectou, e costurou
o estrago provocado pelo leão da melhor maneira que lhe foi possível. Tempos depois, essa
pessoa voltou para mostrar à minha Avó que, afinal, ela tinha feito um bom trabalho: ele estava
completamente recuperado.
Mas não era só das aventuras que eles se recordavam. Sucedeu que a minha Avó adoeceu gravemente.
O médico mais próximo encontrava-se na Catabola. Decidiu-se que iriam para lá, onde teriam a
amizade e o apoio dos amigos Sr. Figueiredo e D. Clara, a Tia Clara, madrinha do meu Tio.
Mas, e as crianças? Não podiam levá-las... O que fazer?
O soba apresentou-lhes a solução. Que não se preocupassem, disse-lhes ele. As crianças
estariam sempre acompanhadas e não se sentiriam sozinhas na fazenda. Acendeu-se então uma
fogueira junto à casa da fazenda. Dia e noite havia um grupo à sua roda que se revezava,
conversando sempre... as suas vozes audíveis dentro de casa, provando assim às crianças que
estavam ali para o desse e viesse...
Hoje em dia, quando falo com o meu Tio, chamo-o de Soba Canjungo. Ele acha graça. Mas
invariavelmente nos vem à memória o outro Soba Canjungo, pelos testemunhos que deu de amizade e
solidariedade.