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Início do século XVII: um pouco de História...

... "Já ia longe a Baía de Santa-Maria...

... Foi a 17 de Maio de 1617 que Cerveira Pereira desembarcou na já conhecida Baía das Vacas ou da tôrre, "e nas Cartas se chama Baya de Stº Antº, na ponta da qual pela parte Sul está hû outeiro a modo de Torre que no fim delle faz hû remate como hû Sombreiro..." (1) ...

(1) O nome do Sombreiro deu, mais tarde, nome à baía, que passou a denominar-se, por tal facto, Baía do Sombreiro."...

in "O Reino de Benguela", Ralph Delgado, 1941.





Introdução


"Out of Africa"... "África Minha", em português... Costumam dizer que os filmes passam mal a mensagem contida nos livros em que a história se baseia. Porém, para mim e certamente para os que nasceram ou viveram em África, este filme jamais será esquecido! Dentro daquela avioneta, sobrevoando a paisagem tão familiar, o filme da nossa vida africana desfila pela mente, a saudade bate forte no peito. Afundei-me ainda mais na poltrona e chorei... Não pelas coisas materiais que por lá ficaram, mas por tudo o que África significa, pelo que ela nos ensinou, pela "cabeça" que temos graças à sua imensidão, pela nossa maneira de estar na vida, e por tantas outras coisas mais que só os que lá viveram e verdadeiramente amam aquela terra compreendem e dão valor.

Diz-se que um povo sem história é um povo sem memória. Acredito que isso não se aplica só às nações. Por mais pequeno que o grupo familiar seja, ele terá com certeza uma história para contar.

Em África, onde nasci, existe a figura do guardador da palavra, uma personagem importantíssima, que tem a responsabilidade de recitar a história da sua nação para as gerações que se seguem. É um processo verbal e é fascinante ouvi-la e vê-la a contar a História, representando-a e, ao mesmo tempo, vivendo intensamente cada cena que relata! Assim tem sido durante séculos e, embora as novas tecnologias aproximem os povos, diluindo por vezes algumas das suas características, acredito que essa é uma tradição que continuará por muito tempo. Preferiria, até, que essa personagem jamais deixasse de existir porque faz parte da personalidade única do africano. Ao guardador da palavra rendo a mais sincera homenagem por, de geração em geração, ter trazido até nós todas as histórias que fazem a História de África.

No meu caso, o meio de contar a nossa história será o instrumento mais moderno de que dispomos: o computador. A palavra escrita que permite escrever, recortar, acrescentar, apagar, desenhar, enfim, um tanto de facilidades de que o guardador de palavra não dispõe. Mas se a ferramenta que utilizo permite tudo isso, ela é fria, sem coração, não sente, não se emociona: limita-se a aceitar tudo o que lá se insere.

Assim, a minha responsabilidade será maior: terei de me lembrar das histórias que ouvi desde pequena, contadas principalmente pelos meus Pais, pela minha Avó materna, outros familiares e também amigos, e pô-las preto-no-branco, na melhor forma que me for possível, honestamente e sem enviesar, a fim de passar para o papel, isto é, para o computador, com fidelidade (sob a minha óptica de sentir e ver as coisas) o que me foi contado.

Longe de mim pretender ser uma guardadora da palavra, nem tão pouco uma Karen Blixen! Mas, desde há muito que me persegue a ideia de guardar na forma escrita a história da nossa família, relatando o que consegui recolher sobre os quatro ramos, i.e., os Ferrão Pimentel (Avó Aida), os Saiago (Avô José Joaquim), do lado do Pai, os Rodrigues, os Brunido e os Rodrigues Brunido... (Avó Júlia) e os Abreu (Avô José), do lado da Mãe. Jamais esquecendo o ramo dos Guimarães, o padrasto da minha Mãe, e o ramo Vaz Pereira, o padrasto do meu Pai, pelas marcas profundas que deixaram na nossa família.

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