Só lamento não ter começado mais cedo. Muitos dados se perderam e outros ficarão incompletos. Estamos nos últimos meses de 1999 e a memória da minha Mãe já está afectada pelas doenças que cada vez mais debilitaram a sua saúde. Foi ela, mais do que qualquer outra pessoa, que me deu a saber tanto acerca da nossa família e, quem sabe?, suscitou-me o gosto por querer saber mais e guardar na memória as inúmeras histórias que desde muito pequena oiço acerca dos nossos. Lembro-me, desde sempre, de ouvi-la falar da família. Aprendi com ela a respeitar a nossa memória e sinto que se se renega, se se esquece a nossa história, caminhamos incompletos vida fora. O meu Pai era também um óptimo contador de histórias, narrando-nos as suas mil e uma aventuras por aquela enorme Angola e ex-Congo Belga (hoje República Democrática do Congo). A minha Avó Júlia falava-me da sua família e tudo quanto aconteceu, desde que os seus pais deixaram a Ilha da Madeira e partiram para contribuir para o povoamento do interior do Sul de Angola. Quero contar o que foi a vida da nossa família em Angola, a ida para lá e, depois, as circunstâncias em que deixamos o nosso país e partimos por esse mundo afora...
Contar tudo: o bom e o mau, sem grandes dramas, é claro!, mas afinal é disso que uma vida, ou muitas vidas, como as nossas, são feitas: alegrias, risos, gargalhadas, tristezas, sofrimento, dor, lágrimas. Fraquejando uns dias, caindo noutros mas, depois, levantando-nos e seguindo em frente. Passaram-se alguns meses desde que comecei a escrever. Faço-o principalmente à noite, depois de ter deitado a Mãe Lola, com todo o cerimonial que isso implica: "montar a tenda", como digo, isto é, fazer a sua cama na sala-de-estar, ajudá-la a deitar, aconchegá-la, a administração dos remédios e depois a leitura do dia do livro "Ouro, Incenso e Mirra", trazido do Brasil pela missionária pernambucana, Celênia Pires Ferreira, que a Mãe Lola conheceu na Missão do Dondi, perto da Bela Vista, Huambo, e que ofereceu à Avó Júlia há cerca de 70 anos. Nele há registos da Avó Júlia, do Avô Guimarães, meus e de uns poucos outros membros da família - principalmente nascimentos, casamentos e falecimentos. Mas também de acontecimentos que, por qualquer motivo, o autor dos mesmos resolveu registá-los...; a leitura da Bíblia e do hino do "Cantor Cristão" recomendado para o dia e, finalmente, a oração. Assim, a história vai sendo escrita conforme o tempo de que disponho.
Alteração de rumo...
A minha ideia inicial foi de que este seria um trabalho "a uma mão". E, claro!, falei do meu projecto. Foi assim que, desde há muito, o meu querido amigo António Julião, angolano dos quatro costados, residente no Brasil, me aconselhou a que, quando me ligasse à Internet, procurasse um determinado site. Ele tinha-o encontrado por casualidade quando, muito certamente num dia em que se recordou dos seus tempos de militar nas "terras do fim do mundo", digitou a palavra "M-a-v-i-n-g-a". "Não deixes de procurar e ler esse site", dizia-me ele. "É um "cara" chamado Fernando Costa, de Angola, que está na Austrália e conta umas histórias da nossa terra." E, como se demorasse a ligar-me à net, a recomendação foi-me feita várias vezes... Como a nossa Tia Isaura, que casou com o Tio Augusto Brunido, irmão da minha Avó materna, pertence à família Costa, do grupo dos fundadores do Lubango, indaguei à sua filha mais nova, a Eunice, e obtive a informação: Fernando Costa é seu primo pelo lado materno. As coincidências da vida! Quando me pus ao mar da Internet, naveguei através da palavra mágica até às histórias do Nhamalanda. Não resisti a enviar-lhe um e-mail, identificando-me e cumprimentando-o pelo seu óptimo trabalho. O resultado desse primeiro contacto foi o desafio do meu amigo à distância Fernando Costa para que eu, bem como outros familiares meus, contássemos a nossa história, cruzando os nossos sites, já que as famílias se cruzam... ... e desta maneira tentarmos relatar o que foi a odisseia das primeiras famílias madeirenses que chegaram ao planalto da Huíla.