Quando me pediram para escrever sobre o meu Pai, fui assaltada por um mar de recordações e muita
saudade.
Boas e gratas memórias de um homem, que na vida foi um exemplo de integridade e lealdade.
Amigo do seu amigo, era parco de palavras e risos...
Tinha, no entanto, um sentido oportuno de humor que usava sem perder a sisudez. Só o
brilhozinho travesso nos seus olhos deixava transparecer a brincadeira que lhe ia no espírito, o
que, a meu ver, ainda conferia mais graça ao que dizia.
Não me lembro de ouvir o meu Pai às gargalhadas, mas tão pouco, em qualquer circunstância, de
ouvir a sua voz alterada.
No entanto, não poderia falar do meu Pai sem deixar de falar na minha Mãe, da maneira como se
conheceram, e da ligação que existia entre as famílias de ambos.
O meu Avô materno foi para Angola no último decénio do Séc. XlX , por volta de 1890.
De pequena estatura, era conhecido na sua terra de origem (Ansião) por “Farrica”, nome que lhe
ficou por toda a vida e pela qual a família ficou conhecida, ignorando muita gente que o seu
verdadeiro apelido era Fernandes.
Era um republicano convicto tal como o meu avô paterno, Sayago de nome, professor primário, que,
em consequência das suas ideias republicanas, foi destituído do cargo que ocupava na escola
primária na capital e colocado na Humpata.
Penso que foi nessa altura que se terão conhecido e cimentado uma amizade que perduraria por toda
a vida, aproximados também pelos ideais políticos que ambos defendiam em relação ao regime de
então.
As famílias visitavam-se e mantinham hábitos de convívio.
Meu Avô paterno era casado com Aida Ferrão Pimentel Sayago de quem teve 3 filhos: o Arnaldo, o
Rui, meu Pai, e o Inácio. Foi vitimado por uma faísca, deixando viúva a minha Avó com 23 anos e
3 crianças pequeninas de 5, 3 e 1 ano de idade.
E foi exactamente o meu Avô Farrica que prestou o primeiro auxílio à viúva, recolhendo-a em sua
casa e aos filhos, até que a levou para Moçâmedes, onde residia sua Mãe, a minha bisavó
Soledade.
Anos mais tarde a minha Avó Aida voltou a casar-se, porém as famílias continuaram a manter a
amizade, sendo costume deslocarem-se em férias para a casa de Moçâmedes, ou os Saiago para a
casa do Lubango.
E foi assim que a amizade teve continuidade entre os filhos de um lado e de outro e que os meus
pais mutuamente se viram crescer.
Foi também assim que o meu Pai se apaixonou pela minha Mãe, tinha ela só 14 anos, mantendo esse
amor em segredo e esperando que ela completasse 18 anos para lho dizer.
Não era, no entanto, do agrado do meu Avô materno que as filhas se casassem e, segundo ele, só
consentiu que a sua filha Micas se casasse por ser com quem era, jovem que ele conhecia de
criança.
Lembro-me da minha Mãe me contar que, quando o meu Pai foi falar com o meu Avô Farrica,
pedindo-lhe permissão para tal, ele ter-lhe-á dito:
- “Acho que estás a ser parvo ao pretenderes sustentar a filha de outro, pois quem tem filhos
que os sustente… E só te dou permissão para tal, porque é contigo.”
Foi ela a única das 5 raparigas, suas filhas, que casou antes da sua morte.
Casaram 2 anos mais tarde.
Da minha infância e juventude guardo as melhores lembranças. Nunca ouvi palavras alteradas
entre os meus Pais ou tom de voz mais alto, mesmo quando discordavam e fui, sem dúvida, o
centro das suas atenções e amor.
Meu Pai trabalhava para o C.F.B. (Caminho de Ferro de Benguela).
Era responsável pela elaboração dos horários dos comboios. Recordo-o debruçado sobre um grande
estirador de desenho, onde, num papel gigante, traçava a cores as inúmeras linhas, que
correspondiam a outros tantos comboios e ligações.
Nesse tempo não havia computadores e os horários eram impressos em pequenas folhas, com
cada partida, escala, e cruzamento.
A impressão desse trabalho era feita noite adentro e, não raro, vinham bater-nos à porta para que
o meu Pai conferisse cada um deles. Era um trabalho moroso e de enorme responsabilidade, que ele
executava com paciência e pormenor.
Jamais o vi agastado por isso.
Mas a sua evasão era aos fins de semana… Para o mato ou para o mar.
Meu Pai amava o mar.
Nascido em Moçâmedes e vivendo no Lobito, viveu sempre perto dele.
Adorava “furar” as grandes ondas de 3 e 4 metros na altura, por ocasião das “calemas”, tão bem
conhecidas de todos os que viveram no litoral angolano, o que deixava a minha Mãe em perfeito
pavor.
Ele próprio construiu uma “chata”, que ele usava para ir à pesca.
Sozinho, remava para longe de terra, até só conseguirmos divisar um pequenino ponto no horizonte.
E ali se mantinha todo o dia à pesca.
Esses eram dias de medo para nós, em que corríamos amiúde à varanda frente ao mar, para ver se o
víamos ao longe.
Só à tardinha regressava, por vezes ao pôr do sol.