O Tchimbungo

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A sua grande paixão, porém, foi a caça.
Exímio caçador já no tempo da sua juventude, onde, no Deserto do Namibe e, em companhia dos seus irmãos Arnaldo e Inácio e outros jovens do seu tempo, como o Vasco Ferreira, formaram o famoso “Grupo dos Quimalancas” que, num Ford de “calças arregaçadas” e reconstruído por eles, partiam semanalmente para as caçadas no deserto.

Conheciam-nos tão bem, que, quando da visita do Presidente Carmona, fizeram parte dos pisteiros escolhidos para conduzirem no deserto a comitiva presidencial.

Essa paixão manteria pela vida fora.
É-me familiar a imagem do meu Pai a limpar as duas espingardas de caça que possuía, metodicamente, num ritual que se repetia em cada semana. Ritual esse que a ninguém delegava!
E com o seu amor pelo mato e pela caça, o meu Pai recheou a nossa vida de episódios interessantes para mim inesquecíveis, que me excitavam e dos quais conservo uma lembrança nítida e precisa.

Não era homem de sociedade ou de festas, mas tinha um sentido de hospitalidade muito grande.
Não raro recebíamos visitas e as camas eram improvisadas sem qualquer dificuldade.

Lembro-me com saudade dos fins de ano que eram passados no Tapado, onde havia uma roça de um amigo do meu Pai, o Sr. Costa.
Não havia construções definitivas. A casa de jantar era um “jango”, que, e para quem não sabe, é um espaço coberto com um telhado de capim e sem paredes altas. Somente com uma parede feita de paus alinhados, presos uns aos outros, com aproximadamente 1 metro de altura. A porta era uma cancela baixa.
Não havia luz eléctrica e as refeições eram tomadas como se estivéssemos ao ar livre, ouvindo os barulhos da selva próxima. Era uma maravilha…
Todas as noites era feita uma fogueira para afugentar os animais selvagens. Não raro, ouvia-se à noite o rugir do leão. Não muito longe do conjunto das casas, havia uma mulola onde eles tinham por hábito ir beber e para onde, ainda pequena, escapei sem que alguém disso se apercebesse, pondo o acampamento em reboliço à minha procura. Vejo-me como se fosse hoje, sentada na areia, completamente sozinha, desfrutando da minha liberdade.
Só ao fim de algum tempo fui encontrada por um dos trabalhadores da roça.
E lembro-me como com toda a calma o meu Pai me explicou o perigo que corri, sem me ralhar ou levantar a voz.
Dormíamos em palhotas, em camas de campanha. Tudo isto eu adorava, sentindo só medo das aranhas.
A passagem da meia-noite eram festejada por todos, com muitos tiros para o ar.
Para mim, tudo isto era excitante e, ainda hoje, quando me lembro da minha amada Terra, recordo mais o mato, os seus ruídos, os seus cheiros, do que a vida que vivi na cidade.
Tudo isto o meu Pai me ensinou a amar.
E foi assim que cresci.

Era um “homem do mato”, conhecido pelos indígenas e amigos próximos como o “Tchimbungo”, que quer dizer “lobo”, nome que herdei depois da sua morte. Passaram a chamar-me de “Tchimbunguinha”.

Orientava-se perfeitamente no mato.
Qualquer pedra, árvore, arbusto ou morro lhe servia de orientação quando nele se embrenhava, a pé, ou de jipe, com os companheiros. Era um bom pisteiro. Era aí que se sentia verdadeiramente feliz.

Com prazer montava o acampamento, as tendas, quando as havia.
As mutalas era ele que as fazia.
No alto da árvore escolhida para a espera, normalmente de elefantes, entrançava galhos de árvores que atava com lianas, suporte que serviria para a noite de atalaia.

Conhecido pela sua pontaria, tentava sempre, de um só tiro e num ponto vital, abater a caça.
Jamais se vangloriou de qualquer feito e, tudo o que sabíamos, era contado pelos amigos que o acompanhavam nessas aventuras. Numa época em que ainda não se falava na “defesa do animal” e na “preservação das espécies”, ele já tinha regras estabelecidas por si próprio, que seguia com rigor:



Acredito que, se vivesse no nosso tempo, seria um defensor intransigente dos direitos dos animais.

Eu era o seu grande amor, a sua “princesa” como me chamava.
No entanto, desconfio que teria gostado que eu tivesse sido rapaz. Daí, talvez, o seu grande carinho pelo meu primo Carol. Ele terá ocupado no seu coração o lugar do filho que ele sonhou ter como “companheiro de armas”.

Quando relembro o meu Pai, vejo-o sempre de “captulas” de caqui e capacete colonial, alto de figura e com aqueles olhos muito azuis que me habituei a ver sempre calmos.
A sua perda, repentina e prematura, foi terrível para mim e para a minha Mãe.

Hoje, porém, penso que foi uma bênção para ele.
Não sei como teria resistido se tivesse que partir da sua tão querida Angola.

Ao recordá-lo, faço-o sempre com muito carinho e admiração.
Ele foi, sem dúvida, o meu herói.



Copyright © Maria Manuela Fernandes Saiago


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