"Tchipata" foi o nome que os angolanos de raça negra, do Sul de Angola, deram ao meu Pai.
Desconheço o seu significado. A minha Mãe disse-me que se referia à sua maneira de ser: lutador,
aventureiro...
Realmente, o meu Pai era, antes de mais, um aventureiro. Aventureiro porque não reconhecia
limites para o que se propunha explorar: o desconhecido e, por desconhecido, entenda-se o
deserto, o mato, as fazendas próximas ou distantes..., quanto mais difícil e complicado,
maior o desafio, melhor! Era assim que se sentia bem.
Medo? Foi coisa que não lhe conheci. Por tudo isso, talvez, o seu nome de guerra "Tchipata".
Não pretendo relatar toda a vida do meu Pai, nem tão-pouco a de qualquer outra pessoa. A intenção é
somente contar alguns factos, alguns divertidos, outros mais sérios, que mostrem algumas das suas
facetas.
Após a morte do seu Pai na Humpata, o meu Pai, o mais novo dos três irmãos, recebeu muita atenção
e carinho por parte da sua Avó materna, Maria da Soledade. Como ela, já viúva, administrava as fazendas de Moçâmedes, o meu Pai começou muito cedo a tomar contacto com as coisas da natureza e foi assim que adquiriu o gosto por tudo quanto se relacionava com a agricultura.
Estudou na Escola de Pesca de Moçâmedes, a antecessora da Escola Comercial e Industrial de
Moçâmedes, que eu mais tarde frequentei.
Era um autodidacta. Lia e interessava-se por todos os assuntos e sabia discuti-los
apaixonadamente, com um raciocínio lógico.
O seu amor por Angola era enorme e foi ele, embora a minha Mãe comungasse dos mesmos ideais, que
me deu as primeiras noções de política, me levou, graças às suas infindas conversas, a sonhar,
melhor, a querer a independência do nosso país. Uma independência que ele, e nós por
arrastamento, queríamos democrática e, sem qualquer hesitação, multirracial. Como podería ser de
outra maneira? Que família genuinamente angolana não tem familiares mestiços? Se os filhos do
seu padrasto eram mestiços? Os seus amigos de infância e juventude... O Artur Maria Inácio, de
Moçâmedes, os Victória Pereira, alguns dos Farrica, do Lubango... Só para citar estes.
Ligado à agricultura, no Sul de Angola, mais especificamente em Moçâmedes, onde as culturas de
climas temperados se desenvolviam a um ritmo muito mais rápido do que em Portugal, por exemplo,
sentiu bem de perto o beliscão da influência pesada da potência colonizadora quando impunha ou
proibia culturas, determinava quotas e respectivos preços, deixando para a colónia negociar o que
sobrava... Essas situações revoltavam-no de sobremaneira e recordo-me de, quantas vezes, já no
final da década de 60, início da de 70, entrar casa adentro e, com voz exaltada, exclamar:
"Isto continua a ser a colónia!"...
Eu tentava acalmá-lo, argumentando que era uma questão de tempo: as escolas estavam cheias de
meninos negros, que iriam no futuro participar no desenvolvimento do país. Depois da
independência económica, viria a independência política, de um modo lógico, sem conturbações...
eu tinha a certeza!
Não foi dado tempo para que este promissor sonho se concretizasse...