O Tchipata
Era um óptimo contador de histórias. Lembro-me que, éramos o meu irmão e eu crianças, o nosso
Pai, recordando a sua vivência aventureira, nos contava as inúmeras histórias do mato, das
caçadas... Acontecia quase sempre depois do jantar, ainda sentados à mesa, que foi sempre o
lugar para se conversar, para se discutir todos os assuntos.
Relatava-nos os episódios calmamente, descrevendo com muitos pormenores os locais onde tinham
acontecido e, assim, na nossa imaginação, encaixávamo-nos lá também... Às tantas, ele assumia
uma postura mais descontraída, puxava do seu cigarro e acendia-o... Nós ficávamos literalmente
pendurados nas suas palavras... ele interrompia o relato... puxava uma tragada... saboreava...
soltava o fumo devagar... observava as suas voltas e reviravoltas... e, nós, presos às suas
palavras, aguardávamos ansiosamente que ele terminasse esse cerimonial para continuar o seu
fascinante relato...
E assim como nos contava as suas histórias fantásticas, fez-nos participar, desde a nossa tenra
idade, do seu jeito de vida. Eu, a mais velha, filha única até os meus 4,5 anos, que contrariei
a expectativa dos meus Pais, que imaginavam que o primeiro filho seria um rapaz, fui desde muito
pequena apresentada ao palavreado mecânico e tornei-me uma mini-ajudante, atendendo de pronto aos
seus pedidos de chave-de-fenda, chave-inglesa e outras ferramentas que ele me ensinou a
distinguir :))
Em Moçâmedes, comecei muito criança a acompanhá-lo às hortas e, chegada lá, não se pense
que me mantinha ao seu lado. Dava-me rédea solta! E foi fantástico! Devo a ele poder hoje
afirmar que tive o privilégio de ter tido uma infância em que me foi dada a oportunidade de
conviver com a natureza, aprendendo muito a este respeito e, acima de tudo, a respeitá-la.
No entanto, foi o meu irmão que, como rapaz, foi ainda mais longe! Tinha apenas 5 anos de idade
e logo se decidiu que iria passar uma semana com o Pai, no mato. Essa foi a sua primeira de
muitas outras idas ao mato em companhia do Pai...

Para o meu Pai, estar no mato, dormir no mato, era praticamente a mesma coisa que estar em casa.
Para dormir não dispensava o pijama... mas a almofada podia até ser uma pedra! Não, não pensem
que exagero! É claro que não era uma pedra qualquer. Era escolhida de maneira a que não fosse
muito irregular. Por sinal, até mesmo em casa, às páginas tantas, arranjou um pedaço de madeira
de um dormente (aquelas peças de madeira onde assentam os trilhos dos comboios... era de mussibe,
madeira de Angola). Havia uma razão muito lógica, segundo ele, para usar tais objectos como
almofada: o calor... E foi dessa maneira que dormiu até que partimos de Angola.
O seu à vontade nesse ambiente reflectia-se até no modo como ali dormia. Tinha sono, vestia o
seu pijama, estendia o lençol, arranjava a tal pedra-almofada, acomodava-se e simplesmente
adormecia! Sem pensar duas vezes! Por isso, foi uma vez acordado por um habitante da região,
que o conhecia, e o aconselhou que, ali, deveria dormir com um olho e deixar o outro aberto...
Esse era o comportamento dos nativos, mas não do meu aventureiro Pai...

Uma das fazendas que o meu Pai administrou foi a Fazenda S. Nicolau, hoje Bentiaba. É ali que
começa o Deserto do Namibe. As suas deslocações até lá demoravam pelo menos uma semana. Os
preparativos para a viagem compreendiam várias acções e competia à minha Mãe preparar tanto a
mala com a roupa necessária, como a arca de madeira (naquela época não havia as facilidades que
existem hoje...) com os mantimentos.
Um dia, ele resolveu ir à procura de novos pastos. Os preparativos foram ainda mais
pormenorizados e cuidadosos porquanto ele previa que iria ficar por lá umas três semanas ou
mais...
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