Esta é a história de uma bonita amizade entre uma criança, a autora deste site, e um homem, o
Vasco Ferreira.
O Vasco era amigo do meu Pai e fazia parte do Grupo dos Kimalankas.
Pertenciam ao grupo o meu Pai, o Hugo Vaz Pereira, o Vasco Ferreira, o seu irmão, José.
Possivelmente, também o meu Tio Rui Saiago, já que ele foi um grande caçador (companheiro dos
Cabrais, do Amândio Couceiro, já no Lobito, nas aventuras dos matos...). E não acredito que
o grupo fosse assim tão pequeno. Havia provavelmente outros, mas desconheço.
Devo confessar que, quando jovem, nunca averiguei o significado da palavra quimalanca. Quando,
já crescidota, tive a curiosidade de saber o queria dizer, fiquei decepcionada!
"Quimalanca: s.f. Espécie de hiena africana."... "Hiena: s.f.
Mamífero carnívoro, da família das Hiénidas, feroz e devorador de carne putrefacta, que vive em
África e na Ásia; fig.: pessoa cruel e traiçoeira." !!!
Não!... eles não eram assim! De modo algum! Certamente, como jovens que eram, adoptaram a
palavra sem que se lembrassem do seu significado...
Resolvi, portanto, mudar-lhe a ortografia: Kimalanka... Original... mais bonito!... Nada a ver
com a outra palavra... :))
Os Kimalankas reuniam-se para ir em passeio até ao Deserto do Namibe. Pelo puro prazer de ali
passear. Para caçar. Para ir até à Praia das Miragens, nadar até à jangada e aí se bronzearem
"à Pai Adão", por vezes tendo de nadar de volta assim mesmo porque outro lhes tinha surripiado o
calção...
Profissionalmente, não sei o que é que o Vasco Ferreira fazia. Segundo a minha Mãe, ele
trabalhava muito.
Ele era um Kimalanka e foi assim que o conheci. Companheiro de aventuras do meu Pai pelas terras
do Namibe.
Carinhoso para comigo, distinguindo-me sempre com a sua atenção, conversando comigo, uma menina
de 2, 3 anos. Possivelmente, ele considerava-me uma "kimalankinha"?!?
Era, portanto, mais do que natural o carinho especial que eu dedicava ao Vasco e esse sentimento
acompanhou-me pela vida fora. Ele foi o herói da minha infância, o herói de carne e osso.
O único susto que ele me pregou, involuntariamente, foi quando, um dia, matou um leão e, na
melhor das intenções, correu a trazer o seu trofeu de caça (como sempre fazia) até à nossa casa
para que eu o visse. Bem..., do bicho, só cheguei a ver a cauda e... pernas para que te quero!,
fui esconder-me atrás da charrete da Bisavó Soledade e só conseguiram tirar-me de lá depois que o
meu amigo Vasco se foi, desolado!, com o seu leão!
O meu herói, de pele e olhos claros, sardento, morreu jovem, de cancro da pele e com grande
sofrimento! De tanto ter percorrido as areias do Deserto do Namibe.
Senti muito a partida do Vasco Ferreira... Hoje... saudade, só! Certamente que diluída pelo
tempo... Mas guardarei sempre como uma bela recordação a linda amizade de uma menina e o seu
grande amigo - em tamanho e em qualidade de sentimentos.